neuroarquitetura
May 19, 2021

O que é neuroarquitetura e como aplicá-la para beneficiar seus usuários

A neuroarquitetura é uma disciplina que considera a arquitetura como fator ativo e influente no cérebro humano. Os estudos da neurociência aplicados à arquitetura mostram que os elementos e padrões do ambiente físico podem afetar os usuários a curto, médio e longo prazo. Portanto, o arquiteto deve reconhecer a sua responsabilidade sobre esses efeitos e projetar ambientes que proporcionem o bem estar e saúde física e emocional. Acompanhe essa conexão fascinante entre neurociência e arquitetura através dos tópicos:

Aproveite a leitura!

O que é neuroarquitetura

A neuroarquitetura é a ciência que aplica os conhecimentos da neurociência aos espaços arquitetônicos, demonstrando como os ambientes físicos influenciam o nosso cérebro. Essa disciplina permitiu a integração de diversos campos, como arquitetura e urbanismo, psicologia, biologia, dentre outras disciplinas, que antes não mantinham diálogo, apesar de estarem diretamente conectadas com a percepção e vivência humana. 

A neurociência aplicada à arquitetura mostra que os ambientes possuem influência na rotina das pessoas e podem causar alterações de humor e comportamento, motivar ou desmotivar a permanência, induzir emoções, estimular práticas e impactar desempenhos. A neuroarquitetura busca , através de elementos como luz, cores e texturas, proporcionar a saúde e o bem estar físico e mental de seus usuários, através da manipulação desses elementos.

“A neuroarquitetura é uma disciplina que se refere aos estudos da neurociência aplicados à arquitetura, trazendo os pressupostos científicos do funcionamento do cérebro humano para as atividades projetuais de Arquitetura. Nesse sentido, explora como os ambientes efetivamente podem trazer melhorias para as pessoas ou como podem ser aprimorados para fornecer experiências saudáveis aos usuários.”

A maior parte da vida humana acontece em espaços construídos, são casas, escolas, shoppings, escritórios, dentre muitos outros, logo é natural que grande parte das nossas memórias estejam associadas a ambientes físicos. A neuroarquitetura considera essa variável e passa a pensar os espaços além da concepção estética e funcional, considerando também a capacidade de gerar emoções, memórias e associações positivas, impactando no bem estar cotidiano dos usuários. 

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Os estudos da neurociência identificaram, através de procedimentos como ressonâncias magnéticas e eletroencefalogramas, que certos elementos da arquitetura, como cores, texturas e iluminação, ativam gatilhos em diferentes regiões do cérebro, os quais podem resultar em liberação de substâncias químicas, como hormônios e neurotransmissores, expressões gênicas - produção de proteínas e RNA - até alteração de estados mentais, emoção e comportamento. 

Esses processos mentais ocorrem também em nível inconsciente, ou seja, os estímulos produzidos por um determinado ambiente podem afetar o usuário sem que ele sequer perceba que está sendo influenciado. Portanto, cabe ao arquiteto projetar com ética e responsabilidade, produzindo espaços que promovam um cérebro mais saudável, social e produtivo. 

Ao considerar os processos mentais desencadeados pelos espaços internos, a neuroarquitetura é capaz de projetar ambientes estratégicos. Guiados pelos preceitos da neurociência, é possível criar e distribuir espaços e elementos que causem as reações e emoções desejadas de forma assertiva. Esses conhecimentos podem ser aplicados em áreas como escolas, hospitais, escritórios e residências, buscando sempre trazer qualidade de vida para seus usuários. 

Uma vez aplicada a neuroarquitetura e por meio da combinação de materiais, texturas, cores, iluminação, sons, plantas, dentre outros fatores, é possível criar ambientes inteligentes que influenciam positivamente no comportamento das pessoas, proporcionando maior facilidade de concentração, motivação, relaxamento e assim por diante.

A história da neuroarquitetura

A disciplina da neuroarquitetura é fruto da colaboração de dois profissionais: o neurocientista Fred Gage e o arquiteto John Paul Eberhard, os quais atestaram que o ambiente tem capacidade de transformar certas sensações e capacidades cognitivas do cérebro humano. O termo passou a ser usado oficialmente em 2003, quando Gage e Eberhard fundaram a Academy of Neuroscience and Architecture - ANFA - em San Diego, na Califórnia.

Desde então, o termo tem sido difundido pelas escolas de arquitetura e aplicado em diversos projetos pelo mundo. A ANFA promove conferências a cada dois anos para divulgação e estudo de casos, além de promover a troca de conhecimentos acerca das pesquisas de neurociência e arquitetura, estimulando a expansão da área.

Na arquitetura brasileira, a neurociência aplicada a ambientes tem destaque nos espaços comerciais, estimulando o foco e produtividade dos funcionários. Porém, como falado anteriormente, a neuroarquitetura pode ser aplicada em diversos programas e em diferentes escalas. É possível aplicar os princípios da neurociência em projetos de urbanismo até  projetos de arquitetura de interiores.

Características da neuroarquitetura 

A neuroarquitetura pode ser trabalhada em diversos elementos arquitetônicos, os quais consideram a percepção e os sentidos humanos. Porém, antes de estudar a aplicação dos conhecimentos neurocientíficos na arquitetura e definir as suas características, é necessário entender algumas premissas do projeto onde esses conceitos serão aplicados.  

Premissas do projeto de neuroarquitetura

A primeira delas é referente às pessoas que vão utilizar o edifício, ou seja, qual é o público alvo. A percepção de um indivíduo é influenciada pela sua genética, cultura e experiências individuais. Isso quer dizer que cada pessoa possui uma percepção única, mas também existem certos padrões que podem ser considerados no processo de projeto. Determinadas características do ambiente interno podem causar reações distintas entre grupos sociais diferentes, portanto, é fundamental entender para quem aquele projeto se destina.

A segunda premissa diz respeito ao objetivo da neuroarquitetura em um determinado projeto. É necessário entender qual comportamento o projetista pretende estimular, para então aplicar os conceitos da neurociência de forma coerente. Um ambiente que se destina à criatividade e pensamento lúdico vai ter características distintas de um espaço destinado ao foco e concentração, que por sua vez possui configuração espacial totalmente diferente de um ambiente para lazer e relaxamento.

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A terceira premissa é referente ao tempo de exposição dos usuários ao ambiente. De forma geral, quanto maior o tempo de exposição, maiores são os efeitos que o espaço causa em seu usuário, por isso é necessário prestar muita atenção em ambientes de longa permanência, como áreas de trabalho e residências. Esses ambientes podem gerar inclusive mudanças plásticas no cérebro - remodelação a nível estrutural e funcional dos mapas neuro sinápticos a médio e longo prazo para otimizar funções dos circuitos neurais.

Por fim, é necessário considerar os princípios de ética na prática da neuroarquitetura, pois, como visto anteriormente, os ambientes podem influenciar seus usuários em nível inconsciente e é responsabilidade do arquiteto tratar os espaços a fim de trazer o bem estar físico e mental das pessoas. Esse compromisso deve ser levado a sério, principalmente quando sublinhamos que a arquitetura não é passiva e ela pode ser nociva ao seu usuário, pois afeta o aprendizado (escolas), a cura (hospitais), a produtividade (escritórios), a sociabilidade (locais de lazer), a saúde e qualidade de vida como um todo.

Aplicação da neuroarquitetura no ambiente projetado

A percepção da arquitetura como um fator de influência para o usuário não é algo recente. Desde a época do Vitrúvio essa abordagem já era considerada e foi aplicada em diversos estilos arquitetônicos anteriores, como a arquitetura gótica e a arquitetura moderna. A diferença é que a neuroarquitetura traz a base científica dessas influências. 

Vamos conhecer algumas das características do ambiente projetado e como elas afetam o usuário. Vale lembrar que esses princípios não são regras específicas que devem ser seguidas durante o projeto, na verdade, elas funcionam como guia para o projetista, relacionando conceitos arquitetônicos e propriedades cerebrais

Composição

Esse tópico aborda a percepção do usuário como um todo através da composição do ambiente. Primeiramente, vamos destacar a importância da variedade dos espaços utilizados. Em escritórios, por exemplo, é necessário considerar espaços de descompressão, que proporcionem o relaxamento e encontros sociais, bem como, espaços íntimos, que permitam a privacidade e individualidade. Essa pluralidade de ambiência aumenta a produtividade e é fundamental para o processo criativo.

A composição também considera o layout dos espaços internos. Muitos hábitos são criados de forma inconsciente a partir do ambiente em que estamos inseridos. É importante projetar espaços flexíveis, que permitam a reorganização do mobiliário e da decoração, pois as novas configurações ampliam as possibilidades de percepção, gerando novos esquemas mentais de pensamento, emoção e comportamento.

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Fonte: Fohlio.com

A organização dos espaços é fundamental para a neuroarquitetura. Ambientes limpos e organizados tendem a tranquilizar os usuários, auxiliam na organização de pensamentos e podem reduzir os níveis de ansiedade. Outro fator de destaque é a presença da natureza nos ambientes internos, ela auxilia no relaxamento e também influencia o processo criativo. Estudos comprovam que, mesmo na ausência da natureza, a cor verde e imagens de paisagem causam impactos positivos nos usuários. 

Porém, o contato real com a natureza sempre deve ser prioridade. Projetos com áreas verdes são sabidamente favoráveis à saúde e bem estar dos usuários. Além disso, o contato com elementos naturais, como a madeira, também são benéficos. O uso de materiais naturais, bem como a preservação de áreas verdes é muito favorável para a concepção da arquitetura vernacular, bem como para o projeto de arquitetura sustentável

Visão

Uma parcela de 30% do córtex do cérebro humano é dedicada para o processamento da visão, a qual é subdividida em áreas com funções específicas como reconhecimento de formas, cores, objetos, rostos, localização, etc. Com esses dados, é possível inferir que esse sentido é muito influenciado pela neuroarquitetura. Em primeiro lugar, o projeto dos ambientes deve considerar a iluminação

O uso de luz natural traz ânimo e melhora o humor, além de ser muito benéfico para o conforto lumínico e para a saúde, pois auxilia na regulação do ciclo circadiano - o relógio biológico - responsável por regular os ritmos fisiológicos e psicológicos em um período de 24 horas, influenciando no sono, liberação de hormônios, expressão genética, etc. O aproveitamento da luz natural deve ser prioridade no projeto, visando posicionar mobiliários próximo a janelas, utilizando clarabóias, rasgos de luz, dentre outros elementos. 

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A iluminação artificial com lâmpadas frias tende a induzir o foco e clareza de ideias, sendo uma ótima opção para escritórios e ambientes de trabalho, porém a exposição contínua pode ser estressante. Lâmpadas quentes trazem a sensação de aconchego e tranquilidade, além de criarem uma atmosfera intimista, sendo ideais para quartos, locais de relaxamento e salas de espera.

As cores são responsáveis por darem vida à atmosfera do ambiente, de modo que a cor das paredes e paleta de quadros afetam diretamente o sentimento dos usuários. Conhecer os efeitos das cores e aplicá-las corretamente pode guiar a percepção e comportamento das pessoas de forma positiva, para isso é necessário estudar o círculo cromático, bem como a psicologia das cores. Vamos ver uma breve lista de tons e cores e seus efeitos no usuário:

  • Tons claros: ampliam os espaços e favorecem a concentração;
  • Tons vibrantes: favorecem a criatividade e pensamento lúdico;
  • Tons escuros: criam uma atmosfera de seriedade;
  • Branco: evoca paz e sabedoria, porém seu uso em excesso pode causar tensão, devido ao amplo uso dessa cor em ambientes hospitalares;
  • Amarelo: está associado a criatividade e alegria, mas o uso excessivo pode gerar ansiedade;
  • Azul: remete a calma, tranquilidade e harmonia;
  • Vermelho: relacionado ao batimento cardíaco, traz o sentimento de pulsação e agilidade, porém o uso em excesso pode causar irritabilidade e impaciência.

Audição

É o sentido humano de maior alcance, podendo detectar estímulos sonoros a quilômetros de distância. Os sons podem influenciar nas ondas cerebrais, nos batimentos cardíacos, na respiração e no ciclo circadiano. Sendo assim, os estímulos sonoros estão diretamente ligados ao bem estar dos indivíduos e a poluição sonora pode causar danos à saúde física e mental. 

Além disso, os sons podem influenciar o humor, a capacidade de concentração e as emoções. É necessário avaliar quais as necessidades do ambiente para projetar a ambientação sonora. Dependendo da atividade, o indivíduo vai produzir melhor com certo nível de ruído. Enquanto um ambiente de trabalho geralmente exige maior isolamento acústico, uma academia silenciosa pode ser desmotivante. A ambientação sonora deve considerar um projeto acústico de qualidade, que garanta o isolamento e efeitos esperados.

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Biblioteca Capilano | Fonte: Archdaily

Tato

É o sentido humano com o maior órgão sensorial, ou seja, a pele. O contato é essencial para o estabelecimento de vínculos, além de serem benéficos para a saúde. Estudos mostram que recém-nascidos que recebem mais colo tendem a crescerem mais rápido e saírem do hospital antes. Pacientes adultos internados que são mais tocados pelos enfermeiros apresentam menores níveis de estresse, baixa na pressão sanguínea e menos sensibilidade à dor.

Esse sentido tão estimulante para o cérebro não poderia ficar de fora da neuroarquitetura. O arquiteto deve pensar na ambientação tátil de seu projeto, considerando os materiais e texturas que serão aplicados, bem como a temperatura de cada um desses elementos. É necessário imaginar como serão as superfícies, por exemplo as mesas de trabalho, serão lisas ou possuem textura? 

Tapetes e mobiliário devem ser mais macios e felpudos provocando relaxamento ou é mais interessante que as superfícies sejam lisas? Os pisos são frios ou se adaptam a temperatura, ocasionando uma sensação agradável ao se pisar descalço? Quando o arquiteto especifica uma madeira, por exemplo, ele não deve considerar apenas a sua cor, deve imaginar a sensação tátil, bem como os sons que ela produz quando as pessoas caminham por ela. 

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Fonte: coraparquet.it

Olfato

Esse sentido é muito importante pois está conectado a regiões do cérebro como o hipocampo - responsável pelo processamento de memórias -, a amígdala - responsável pelo processamento de emoções - e o hipotálamo - responsável por controlar a fome. Dessa forma, o olfato é um sentido muito poderoso, que ativa memórias e sensações. Além disso, ele também reconhece odores desagradáveis, causando nojo e guiando o indivíduo para longe deles, portanto, é preciso também estar atento às reações negativas.

Na boa prática da arquitetura, já é um conhecimento consagrado a separação de fluxos e isolamento de odores desagradáveis, como lixo, por exemplo. O arquiteto também aproveita o sentido dos ventos para evitar ou redirecionar uma fonte de odores desagradáveis. Porém, na neuroarquitetura, além de evitar as reações negativas, se busca afirmar as reações positivas do olfato, através de velas perfumadas, aromatizantes, plantas e flores com aromas agradáveis, dentre outros elementos. 

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Exemplos de neuroarquitetura aplicada

A neuroarquitetura é uma disciplina relativamente recente e suas aplicações mais notáveis estão em projetos de maior escala, mas isso não significa que ela não pode ser aplicada em espaços residenciais ou áreas de curta permanência, na realidade, esse é um campo que está sendo cada vez mais explorado. A seguir, vamos mostrar aplicações da neuroarquitetura em uma escola, um hospital e um escritório para inspirar os seus projetos, mesmo que eles não cumpram a mesma função, pois sabendo dos princípios já citados, é possível aprender e reinterpretar as aplicações.  

Montessori Kindergarten | Arka

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Fonte: Archdaily

Em diversas literaturas o espaço de aprendizagem é abordado como “o terceiro professor”, tamanha é sua influência na formação das crianças. O jardim infância Arka em Daxing, na China, traz diversos elementos que estimulam o desenvolvimento através da neuroarquitetura. Os ambientes possuem formato de casa conectados por uma grande escadaria azul que representa um rio, como se todo o jardim infância fosse uma vila, trazendo a sensação de propriedade e segurança, além de estabelecer relação com elementos naturais.

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Fonte: Archdaily

Os espaços internos fazem bom uso da iluminação natural, além de adotar uma paleta de cores com tons claros e pastéis, que trazem uma atmosfera de tranquilidade. As salas também apresentam lâmpadas quentes, trazendo uma sensação de aconchego. Além disso, os espaços e mobiliários são pensados para as dimensões e necessidades das crianças, considerando a ergonomia e arestas arredondadas. Também nota-se a exploração das diferentes texturas que permitem a exploração tátil.

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Fonte: Archdaily

Além das salas de aula, o jardim de infância conta com uma biblioteca, a qual possui uma árvore em seu centro e configura um amplo espaço livre que promove encontros e banheiros lúdicos, com dimensões adequadas à escala das crianças. Um dos espaços de destaque é a horta, que possibilita o contato direto com a natureza, estimulando o relaxamento e o olfato.

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Fonte: Archdaily

Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek | João Filgueiras Lima (Lelé)

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Foto: Nelson Kon

Os ambientes hospitalares influenciam no processo de cura e destacam a relação entre se sentir bem e estar bem. O Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek do Lago Norte, em Brasília, tem como princípio uma visão mais humanizada do ambiente hospitalar. A aplicação da neuroarquitetura é totalmente adequada, pois o Centro abriga programas de reabilitação neurológica e ortopédica, simulando ambientes residenciais que, além de se adequarem a terapia, auxiliam na sensação de aconchego e relaxamento dos usuários.

O Centro oferece interação com a natureza, através de amplas áreas verdes, e visuais para o Lago Paranoá. O prédio principal conta com amplas janelas envidraçadas que favorecem a conexão visual dos espaços internos e externos, além de aproveitar a luz natural. O conforto é delicadamente pensado e a ventilação é introduzida através dos sheds amarelos. As cores do mobiliário são vivas e trazem uma atmosfera muito alegre para o ambiente, harmonizadas como o chão verde.

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Foto: Nelson Kon

Um edifício circular abriga a terapia infantil. Ele possui uma grande claraboia responsável pela ventilação e iluminação natural do ambiente. Dentro dessa cobertura é possível observar o uso de vegetação e muitas cores. A piscina para terapia é combinada com a areia do parquinho e mobiliário para crianças, adequados à escala dos usuários, resultando em uma série de estímulos táteis e visuais.

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Foto: Nelson Kon

As passagens, fachadas, salas de espera e também o auditório fazem uso muito inteligente de cores e formas, agregando muito valor à experiência. Os corredores do prédio principal possuem brises de comunicação com a área central, gerando, além da cor, uma textura muito interessante nas passagens. O auditório é executado em azul para tranquilidade, e apresenta formas verdes que quebram a seriedade do local.

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Foto: Nelson Kon

Escritórios Google Tel Aviv | Camenzind Evolution

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Fonte: Archdaily

Quando falamos em neuroarquitetura, os escritórios Google são referência, pois foi uma das primeiras empresas a perceber o impacto dos ambientes na produtividade e capacidade criativa de seus funcionários, concebendo interiores apaixonantes e únicos. Tendo em vista que os edifícios comerciais são o atual foco da neuroarquitetura no Brasil, selecionamos um projeto que é uma verdadeira aula dessa disciplina e vamos comentar ponto a ponto. Trata-se do escritório Google de Tel Aviv em Israel. 

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Fonte: Archdaily

O primeiro ponto a ser destacado é a variedade de espaços. O escritório proporciona diversos ambientes de acordo com a atividade, existem locais de ampla interação social, como os refeitórios e áreas de recreação, ambientes para trabalho em grupo, como salas de reunião, e áreas mais reservadas para trabalho individual. O mobiliário fixo é complementado com peças móveis, que permitem a flexibilidade do layout.

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Fonte: Archdaily

O uso da vegetação é notável no projeto, proporcionando forte contato com a natureza. Vegetações naturais e artificiais, somadas a fotos de paisagens criam uma ambientação muito natural. Além da vegetação, os espaços combinam materiais naturais como madeira e fibra, aplicadas nos mobiliários e acabamentos.  A decoração em caixotes, pisos simulando areia e pedra bem como a iluminação auxiliam na concepção da atmosfera natural.

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Fonte: Archdaily

As cores são muito bem utilizadas em todos os ambientes. Espaços verdes com textura felpuda simulam a maciez da grama e estimulam a criatividade. Já as áreas de lazer em azul evocam a tranquilidade. Diversos outros locais trazem cores em pontos específicos, deixando o ambiente com atmosfera muito viva. As texturas dos acabamentos e mobiliários também são diversas e compõem praticamente todos os ambientes com riqueza. 

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Fonte: Archdaily

A iluminação é um fator de destaque, além das amplas janelas de vidro que permitem a entrada da luz natural, a iluminação artificial conta com fitas de led e lâmpadas quentes e frias para direcionar sensações, um dos ambientes traz até projetores capazes de criar uma ambientação totalmente única apenas com a iluminação.

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Fonte: Archdaily

Um aspecto interessante dos escritórios Google é a concepção de ambientes temáticos, e a sede de Israel não é uma exceção. É possível observar locais com decoração de marinha ou praiana, por exemplo, trazendo objetos não associados ao escritório para os espaços. Essa decoração afetiva pode gerar bastante conexão e trazer tranquilidade para as pessoas, as quais estão familiarizadas com esses objetos. 

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Fonte: Archdaily

O Google também brinca com o sentido da propriocepção, responsável pelo reconhecimento da posição e orientação corporal. Esse sentido também chamado de cinestesia pode ser estimulado com exercícios de equilíbrio e tato. Na neuroarquitetura ele foi explorado com a concepção de pisos não regulares e instalação de um tobogã, que proporciona outras experiências de equilíbrio para o corpo.

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Fonte: Archdaily

Por fim, o projeto do Google para Israel contou com ambientações completas, simulando um quintal chuvoso com fotos, iluminação  e diferentes texturas no piso. Os corredores se transformaram em uma vila, com paredes e pisos de pedra, janelas de madeira e floreiras. Um terceiro ambiente traz a ambientação de uma falésia, com piso correspondente, iluminação delicada e mobiliário que segue a linguagem do volume curvilíneo.

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Fonte: Archdaily

Ver x sentir: uma abordagem sobre a projetação atual

Imagine três projetos que você admira. Agora responda, quantos desses locais você visitou? Muito dificilmente você terá conhecido os três pessoalmente. Isso porque a arquitetura é ensinada através das referências visuais, que inibem os demais sentidos. Ao projetar, nós replicamos essas referências, através de sketches e modelos que se materializam visualmente, mas desconsideram as sensações que aquele ambiente vai causar.

Ver a arquitetura não é suficiente, é preciso sentí-la. O arquiteto deve ao máximo visitar os locais que admira para entender como aquela arquitetura fala: quais sons ela traz, quais sons ela abafa, qual a sua sensação térmica, qual é a sensação de toque das paredes, do piso, quais são os cheiros dos materiais e também quais são as cores, como é a iluminação. A visão também é limitada na foto, as cores são vivas, as luzes se movem, as plantas balançam com o vento, todos esses estímulos devem ser considerados. 

Ao visitar os espaços, procure fazer anotações sobre as sensações, ao invés de apenas tirar fotos. O arquiteto deve manter o domínio dos cinco sentidos humanos no ambiente: visão, audição, tato, olfato e paladar (pode ser trabalhando em ambientes como restaurantes), evoluindo para outros sentidos como a propriocepção - capacidade de conhecer a localização espacial do corpo - e interocepção - conhecimento sobre o próprio status fisiológico e patológico que podem ser trabalhados em ambientes hospitalares, por exemplo.

Um projeto de neuroarquitetura considera o espaço como a experiência, entendendo toda a complexidade do ambiente construído. Ao compreender os mecanismos da neurociência aplicada à arquitetura, o arquiteto é capaz de proporcionar uma experiência incrível, guiando eticamente as sensações do usuário. Por exemplo, um hall de entrada um pouco mais frio pode potencializar a sensação de conforto e intimidade dos quartos de um hotel. 

Nos tempos atuais, onde a saúde e bem estar físico e mental estão em evidência, é essencial saber projetar espaços que favoreçam a qualidade de vida, essa vertente tende a ser cada vez mais cobrada pelo mercado e pela sociedade e é papel do arquiteto entender e responder a essa demanda tão nobre que é a projeção de espaços saudáveis através da neuroarquitetura


Até a próxima,

Equipe Vobi


Referências:

www.archglassbrasil.com.br

www.archademy.com.br

www.blog.ipog.edu.br

www.tegraincorporadora.com.br

www.vivadecora.com.br

www.neuroau.com

www.uninovafapi.edu.br

www.archdaily.com

www.sarah.br

www.nelsonkon.com.br

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