
O Brasil deve receber R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias digitais entre 2026 e 2029, segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom, com a maior fatia concentrada em computação em nuvem (R$ 765,6 bilhões) e inteligência artificial (R$ 736,6 bilhões). Uma parte crescente desse dinheiro está indo para o mesmo lugar onde sempre foi parar o capital da construção civil brasileira: terreno, concreto e obra pesada, só que agora para erguer data centers, não prédios residenciais.
O país já concentra cerca de 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e responde por 71% de toda a capacidade em construção na região, segundo levantamento da consultoria JLL divulgado em março. A capacidade total instalada no Brasil deve mais que dobrar só em 2026, saindo de 826 megawatts para 1.746 megawatts, com projeções que apontam para 9.959 megawatts em 2030 e 13.321 megawatts em 2036. Para efeito de comparação, a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) estima que os novos projetos em desenvolvimento no país somem 2.000 megawatts adicionais de capacidade, com investimentos da ordem de US$ 20 bilhões.
Os projetos batizados de "AI City" ilustram a escala dessas obras. A Scala Data Centers já anunciou R$ 27 bilhões em investimentos até 2026 e desenvolve em Eldorado do Sul (RS) um megacampus com capacidade projetada de até 4,75 gigawatts, batizado de primeira cidade de data centers de IA do país. A Elea Data Centers, que teve o controle assumido pelo fundo americano I Squared Capital em abril, com aporte inicial de R$ 2,5 bilhões, planeja investir mais US$ 10 bilhões em projetos como o Rio AI City, complexo de até 1,5 gigawatt projetado para a área do Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. Ascenty, ODATA e Equinix completam a lista dos grandes players que hoje disputam terreno, energia e mão de obra de engenharia com o mercado imobiliário tradicional.
"A dependência crescente de empresas, governos e consumidores de serviços digitais amplia a necessidade de estruturas físicas capazes de processar e proteger dados, abrindo uma nova frente de desenvolvimento para o mercado imobiliário", afirma Renato Monteiro, CEO da Sort Investimentos.
O contraste com o mercado residencial tradicional ajuda a explicar por que o capital está migrando de direção. Nos primeiros meses de 2026, incorporadoras de médio e alto padrão registraram recuo de cerca de 60% em lançamentos e vendas, pressionadas pelos juros ainda elevados, enquanto o segmento de baixa renda seguiu sustentado pelo Minha Casa, Minha Vida. Data centers, por outro lado, não dependem do apetite do consumidor final por financiamento habitacional: seus contratos de longo prazo com hyperscalers como AWS, Microsoft e Google garantem receita previsível por décadas, o que os torna mais resilientes a ciclos de juros altos do que um lançamento residencial de médio padrão.
O gargalo dessa expansão não é mais o capital, mas a infraestrutura para sustentá-la. A demanda de eletricidade dos data centers cresceu 35,8% em um ano na base da CPFL Energia, e os pedidos de conexão à rede básica feitos por esses projetos já somam mais de 13,4 gigawatts, superando setores tradicionalmente intensivos em energia como indústria e mineração. Ao todo, projetos em fila de conexão à rede elétrica somavam 26,2 gigawatts no fim de 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética, e a fatia dos data centers no consumo elétrico nacional deve saltar dos atuais 2% para uma faixa entre 4% e 5% até 2031.
Isso empurra os novos projetos para além dos polos tradicionais de Barueri, Alphaville e Campinas, hoje saturados de oferta de energia e terrenos aptos. Fortaleza ganhou força por concentrar 17 cabos submarinos de internet, o que fez do Ceará o terceiro estado do país em infraestrutura desse tipo, enquanto o Rio Grande do Sul desponta como nova fronteira graças à oferta de energia renovável e a incentivos fiscais estaduais.
Para o setor da construção, a corrida por data centers representa uma nova linha de negócio com exigências técnicas bem diferentes das de um empreendimento residencial: fundações para suportar racks pesados, sistemas de refrigeração industrial, redundância elétrica, segurança física reforçada e prazos de entrega apertados ditados por contratos com hyperscalers globais. Construtoras, projetistas e fornecedores de infraestrutura elétrica que se especializarem nesse tipo de obra têm um mercado que cresce em ritmo de dois dígitos justamente no momento em que o segmento residencial de médio e alto padrão perde fôlego com os juros altos. A disputa por terrenos bem localizados e por conexão à rede elétrica também deve se tornar um novo fator de custo e de atraso a ser monitorado por qualquer incorporador que negocie área industrial ou logística nas regiões metropolitanas mais disputadas pelos data centers.
Fontes: Brasscom, JLL, Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), DatacenterDynamics Brasil, CPFL Energia, Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

