
A falta de trabalhadores qualificados nos canteiros deixou de ser um problema pontual e passou a redesenhar a forma como o Brasil constrói. No 4º Seminário Industrialização na Construção, realizado em 16 de setembro no Teatro do Sinduscon-RS, especialistas de indústria, arquitetura e engenharia se reuniram para debater um ponto em comum: sem sistemas pré-fabricados e processos industrializados, boa parte das obras brasileiras simplesmente não vai fechar a conta de prazo e mão de obra nos próximos anos.
O evento, promovido pela AsBEA e pelo Sinduscon-RS, reuniu representantes da indústria, projetistas, incorporadoras e construtoras para discutir tecnologia, produtividade e qualificação profissional. A leitura predominante entre os palestrantes é que a integração entre esses agentes, quanto mais cedo acontecer no ciclo de um empreendimento, maior a chance de incorporar soluções industrializadas de forma eficiente à obra.
"Devido à falta de mão de obra, a industrialização deixou de ser uma opção e se tornou praticamente obrigatória", afirmou Roberto Sukster, vice-presidente do Sinduscon-RS.
Segundo Sukster, não basta conhecer os sistemas construtivos disponíveis no mercado: é preciso aproximar arquitetura, incorporação e construção para que essas soluções realmente saiam do papel. Na mesma linha, a presidente da AsBEA destacou que a adoção de novas tecnologias também abre espaço para novas funções dentro do setor, o que pode tornar a construção civil mais atrativa para trabalhadores que buscam cargos mais bem remunerados.
"Cada vez mais as pessoas querem buscar trabalhos qualificados ou mais bem remunerados. Para isso, é necessário qualificar as pessoas", disse Raquel, presidente da AsBEA.
Entre os casos apresentados, o engenheiro Paulo M. N. Borges mostrou o sistema LigaFácil, voltado à industrialização de instalações elétricas e hidráulicas por meio de kits entregues prontos para instalação em obra. Segundo ele, entre os resultados observados em empreendimentos que já adotaram o sistema estão redução de custos com mão de obra, materiais, resíduos e assistência técnica, além de aumento de produtividade. Já o engenheiro Sérgio Bandeira, da Inovacel, apresentou soluções voltadas a desempenho térmico, redução de resíduos e segurança contra incêndio em fachadas industrializadas.
O seminário também trouxe uma referência internacional. Juan Pablo Delatorre, diretor de operações do Enkel Group, relatou que o Uruguai enfrenta desafios parecidos com os do Brasil na disponibilidade e no custo da mão de obra, o que tem acelerado a adoção de sistemas construtivos industrializados, como a madeira engenheirada usada pela empresa em empreendimentos de mais de 2 mil metros quadrados, entre eles o residencial Médano, com 120 unidades à beira-mar.
"O mercado precisa de sistemas que usem a menor quantidade de mão de obra possível para alcançar os melhores resultados", declarou Delatorre.
A arquiteta Beatriz Mélo, coordenadora técnica do Instituto IACAI, completou o painel mostrando como a pesquisa e a documentação de soluções construtivas históricas e contemporâneas, reunidas no Banco de Soluções da entidade, podem embasar projetos industrializados hoje. Entre os exemplos citados estão a Casa Gerassi, de Paulo Mendes da Rocha, com estrutura pré-fabricada de concreto, e o Edifício R3, de Milton Ramos e Aleixo Furtado, também com estrutura e fachada pré-fabricadas.
Para quem constrói no Brasil, o recado do seminário é direto: esperar a mão de obra qualificada voltar a ficar abundante não é mais uma estratégia viável. Incorporadoras, escritórios de arquitetura e construtoras que passarem a planejar a industrialização desde as primeiras etapas do projeto, e não como um ajuste de última hora no canteiro, tendem a sair na frente em prazo, custo e previsibilidade justamente no momento em que o setor mais precisa disso.
Fontes: CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção); Sinduscon-RS; AsBEA.

