
Os Estados Unidos iniciaram a construção de 1.427 mil novas moradias em ritmo anualizado em junho de 2026, alta de 19% ante maio, segundo o Census Bureau - o maior volume em três meses, puxado por um salto de 76,2% nas obras multifamiliares.
A recuperação, porém, é desigual entre os segmentos. As obras unifamiliares, o motor tradicional do mercado residencial americano, somaram 895 mil unidades em ritmo anualizado, queda de 0,2% ante maio e de 3,2% na comparação com junho de 2025, segundo a National Association of Home Builders (NAHB). É o terceiro mês seguido de retração nesse segmento.
Já as edificações com cinco unidades ou mais (o segmento multifamiliar, que inclui apartamentos e condomínios para locação) somaram 513 mil unidades em ritmo anualizado, alta de 76,2% ante maio e de 17,2% na comparação anual, segundo o mesmo levantamento da NAHB.
O contraste reflete o momento do consumidor americano: juros hipotecários elevados e custos de construção em alta. Os custos de imóveis unifamiliares subiram cerca de 3,2% em 12 meses vêm afastando compradores e empurrando parte da demanda para o aluguel, o que estimula construtores e investidores a apostar em empreendimentos multifamiliares voltados à locação.
Para conter o excesso de estoque parado, incorporadoras de imóveis unifamiliares nos EUA têm reduzido a construção especulativa (sem comprador definido), oferecido descontos diretos no preço e subsidiado taxas de financiamento para reativar vendas - estratégia que já aparece nos dados de menor volume de lançamentos unifamiliares.
O movimento acontece em paralelo a um aumento nos custos de insumos e mão de obra em todo o setor global de construção: fabricantes de máquinas e equipamentos, como Caterpillar, Komatsu e a chinesa Sany, já aplicaram reajustes de preço entre 3% e 7% ao longo de 2026, segundo dados do setor, pressionando ainda mais o orçamento de obras em todo o mundo.
Ainda assim, o salto de junho não apaga o quadro do primeiro semestre: o ritmo de lançamentos unifamiliares nos EUA vinha em trajetória de queda desde o início do ano, refletindo o mesmo aperto de crédito que atinge outros mercados desenvolvidos, enquanto o segmento multifamiliar se consolida como a peça que sustenta o total de construções iniciadas no país.
As licenças para construção futura (building permits), indicador que antecipa o ritmo de obras dos meses seguintes, também mostraram um padrão parecido em junho: força concentrada em empreendimentos multifamiliares, com o segmento unifamiliar ainda em trajetória mais cautelosa, segundo o mesmo relatório do Census Bureau - sinal de que o padrão observado em junho não deve ser revertido de forma abrupta no curto prazo.
A leitura do mercado é que o ciclo atual nos EUA está sendo desenhado por incorporadoras institucionais e fundos, que dominam boa parte da produção multifamiliar para locação, enquanto pequenas e médias construtoras voltadas ao unifamiliar seguem mais expostas ao efeito direto dos juros altos sobre o comprador final.
O comportamento do mercado americano funciona como um espelho adiantado para o Brasil: juros elevados favorecendo o segmento multifamiliar/locação em detrimento da casa própria unifamiliar é exatamente a dinâmica que incorporadoras brasileiras já monitoram por aqui, com fundos e investidores institucionais ampliando apostas em built-to-rent.
Além disso, o episódio reforça que o custo dos insumos importados, de aço a equipamentos pesados, segue em rota de alta global, o que também encarece obras no Brasil, dependente de máquinas e componentes cotados em dólar. Acompanhar como o mercado americano ajusta preço, subsídio e ritmo de lançamento para escoar estoque unifamiliar oferece um roteiro prático de reação caso o cenário de juros altos se prolongue também por aqui.
Para incorporadoras brasileiras que avaliam diversificar para produtos de locação, o exemplo americano mostra que a decisão entre construir para vender ou para alugar pode se tornar ainda mais relevante caso a Selic demore a ceder e que os primeiros a se posicionar nesse nicho tendem a capturar a demanda represada por moradia que os juros altos deixam represada no mercado tradicional de compra.
Fontes: U.S. Census Bureau; National Association of Home Builders (NAHB) / Eye on Housing.