
A Ascenty, joint venture entre Digital Realty e Brookfield Infrastructure, anunciou em 5 de agosto um investimento de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões, na conversão usada por veículos como a InvestNews) para construir quatro data centers voltados à inteligência artificial na região de Sumaré, interior de São Paulo.
O projeto principal, batizado de Sumaré 3, será a primeira unidade da América Latina projetada desde a concepção para suportar cargas de trabalho de IA em larga escala. Segundo a empresa, a unidade terá capacidade inicial de 90 MW, com espaço já reservado em energia e terreno para dobrar essa capacidade no futuro. Os quatro projetos somados chegam a 150 MW - mais de 40% de tudo o que a Ascenty construiu em seus 15 anos de história.
As obras do Sumaré 3 começaram em março de 2026 e a entrega está prevista para o terceiro trimestre de 2027, em um terreno de 48 mil m². A companhia afirma que a capacidade dos quatro empreendimentos já está 100% pré-locada por empresas globais de tecnologia.
"Esse projeto que estamos fazendo no Sumaré 3 é um projeto único, 100% IA e 100% líquido resfriado. Isso não existe hoje no Brasil", disse Chris Torto, CEO da Ascenty, à imprensa.
"Estamos construindo a infraestrutura que vai impulsionar a próxima geração de IA no mundo", acrescentou Torto.
O uso de resfriamento líquido em toda a planta é um diferencial técnico — a tecnologia permite maior densidade de processamento por rack, essencial para os chips de IA mais recentes, mas exige projetos elétricos e hidráulicos mais complexos do que um data center convencional. O anúncio confirma o Brasil como o polo de data centers mais avançado da América Latina: o país já concentra 48% da capacidade instalada e 71% da capacidade em construção na região, segundo dados de mercado citados pela imprensa especializada. O movimento acompanha uma corrida global: Amazon, Microsoft, Google, Meta e Oracle devem investir juntas cerca de US$ 725 bilhões em 2026, com aproximadamente 75% desse volume direcionado à infraestrutura de IA.
O apetite por energia limpa e terreno disponível no interior paulista tem sido um dos fatores citados por executivos do setor para explicar por que Sumaré, e não a capital, concentra parte relevante dessa nova onda de obras. A própria Ascenty vinha de um trimestre de expansão comercial: a empresa anunciou recentemente 150 MW em novos contratos de IA, volume recorde para a companhia, o que ajuda a explicar a decisão de acelerar obras mesmo em um cenário de custo de capital elevado.
O investimento também reacende a discussão regulatória em torno do Redata, o regime especial de tributação para data centers que perdeu validade em fevereiro de 2026 após ter sido instituído por medida provisória em setembro de 2025. Defensores do programa argumentam que sua reedição poderia elevar os investimentos anuais do setor no país para até R$ 100 bilhões, ampliando a capacidade instalada nacional dos atuais 750 MW para 3 GW até 2032 - números que dão a medida da escala que projetos como o de Sumaré ainda podem alcançar caso o incentivo tributário seja retomado pelo Congresso.
Cada data center hyperscale é, antes de tudo, uma obra pesada de engenharia civil e elétrica: fundações reforçadas, subestações dedicadas, redes de distribuição de água para resfriamento e prazos de entrega apertados.
Para construtoras, projetistas e fornecedores de infraestrutura crítica no Brasil, o ciclo de investimento em IA abre uma frente de obras industriais de alto valor agregado, concentrada por enquanto no interior paulista. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado desses projetos pressiona a demanda por mão de obra especializada e por capacidade elétrica local, um ponto de atenção para municípios e concessionárias de energia que vão sediar a próxima leva de empreendimentos. Quem atua com projetos elétricos, refrigeração industrial e obras de infraestrutura pesada tem, no calendário de expansão dos data centers, um dos poucos segmentos da construção brasileira crescendo em ritmo de dois dígitos independentemente do ciclo de juros do crédito imobiliário tradicional.
Fontes: Ascenty (comunicado à imprensa), Forbes Brasil, InvestNews, Bloomberg Línea, CanalSolar.

