
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno de 25 de outubro com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), com 99,99% das urnas apuradas, e o setor da construção, que responde por cerca de 6% do PIB, chega ao novo ciclo com uma agenda clara: juros menores, crédito mais amplo e uma discussão sobre a jornada de trabalho.
O resultado define o ambiente em que o setor vai operar até dezembro de 2030, mas os planos de governo detalharam pouco as medidas específicas para obras e habitação. O que existe de concreto, por ora, são os números de mercado e os pedidos das entidades. A CBIC projeta crescimento de 1,2% para a construção em 2026, após alta de 0,5% em 2025, impulsionado por obras de infraestrutura e pelo Minha Casa, Minha Vida.
O programa habitacional já é o principal motor dos lançamentos. Segundo a CBIC, o Minha Casa, Minha Vida respondeu por 58% dos lançamentos residenciais no segundo trimestre de 2026, com 62.129 unidades, contra 45.032 dos demais segmentos. No primeiro trimestre, a fatia era de 50%. Já o médio e alto padrão depende mais do crédito com recursos da poupança: o Banco Central registrou saída líquida de R$ 6,19 bilhões da poupança em setembro e de R$ 9,51 bilhões em agosto, embora os financiamentos com esses recursos somem R$ 132,5 bilhões de janeiro a agosto, alta de 37,5%, segundo a Abecip.
"O médio e alto padrão é muito mais dependente de juros e de financiamento vindo da SBPE", afirmou João Daronco, analista da Suno Research.
A confiança do empresário reflete essa cautela. O Índice de Confiança da Construção da FGV caiu 1,4 ponto em setembro, para 90,5 pontos, o menor nível do ano. Entre os custos, a CBIC aponta alta de 6,44% em 12 meses até julho, acima da inflação oficial de 4,44%, com o fio de cobre subindo 21,35%.
"Taxas de juros por um longo período acima de dois dígitos prejudicam muito os investimentos produtivos", disse Ieda Vasconcelos, economista da CBIC.
Entre as propostas do setor para o próximo governo está elevar de 80% para 90% o direcionamento da poupança ao financiamento residencial, o que, segundo a CBIC, liberaria cerca de R$ 75 bilhões adicionais, com taxas de até 12% ao ano para imóveis de até R$ 2,25 milhões. A entidade também defende que o equilíbrio fiscal seja prioridade, por ser condição para a queda dos juros, e pede simplificação na aprovação de projetos, um Código de Obras Nacional e prazo adequado de adaptação à reforma tributária.
Outro ponto sensível é a redução da jornada de 44 para 40 horas, que a CBIC calcula exigir mais de 288 mil contratações e poderia elevar o custo da mão de obra em até 15%, com impacto de pelo menos 6% no custo total das obras, sem ganhos de produtividade. A entidade defende que o tema seja discutido junto com qualificação profissional.
Na infraestrutura, o Ministério dos Transportes já trabalha com leilões de rodovias e ferrovias no primeiro semestre de 2027, e análises de mercado apontam continuidade das concessões e parcerias público-privadas. O desafio comum a todas as frentes, segundo essas análises, é o equilíbrio fiscal da União, que condiciona a trajetória dos juros e a capacidade de financiamento.
Para quem constrói, incorpora e projeta, o que muda primeiro não é a obra, e sim o custo do dinheiro: juros, crédito da poupança e regras de financiamento decidem o ritmo de lançamentos e o capital de giro. Vale revisar orçamentos com cenários de custo de mão de obra e de insumos, acompanhar as definições sobre a jornada e a reforma tributária nos contratos e manter a gestão de custos e cronogramas rigorosa, já que as incertezas fiscais e de juros seguem no horizonte de 2027.
Fontes: InfoMoney (resultado do 2º turno, 25/10/2026, e agenda da construção, 10/10/2026); Suno (impacto das eleições na construção civil, 25/10/2026); CBIC; Banco Central; Abecip; FGV; Estadão via Grandes Construções.

