Engenharia civil

Leilão da ferrovia Fico-Fiol, de R$ 28,7 bilhões, não sai em agosto e é adiado para dezembro

26/8/2026

O leilão do Corredor Leste-Oeste, a ferrovia Fico-Fiol que ligará Mato Grosso à Bahia, estava marcado para acontecer neste mês na B3. Agosto termina sem que o edital tenha saído do papel, e o Ministério dos Transportes já trabalha com uma nova data: dezembro de 2026. O projeto prevê 1.647 quilômetros de trilhos e um investimento estimado em R$ 28,7 bilhões ao longo de 35 anos de contrato.

O atraso não é um caso isolado. Das nove concessões ferroviárias que o governo federal pretendia levar a leilão ao longo de 2026, somando uma carteira de R$ 140 bilhões em investimentos e outros R$ 516 bilhões vinculados à operação dos trechos, nenhuma cumpriu o cronograma original. Apenas três projetos ainda dão sinais de que podem sair do papel neste ano: o Anel Ferroviário Sudeste (EF-118), remarcado para setembro; o Corredor Minas-Rio, agora previsto para outubro; e a Ferrovia Malha Oeste, empurrada para novembro. A Ferrogrão, que ligaria Mato Grosso ao Pará, segue no mesmo pacote de dezembro que a Fico-Fiol.

Segundo o Ministério dos Transportes, o descompasso reflete a necessidade de ajustes em estudos técnicos e a tramitação de cada projeto na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e no Tribunal de Contas da União (TCU), etapas obrigatórias antes da publicação de qualquer edital. A pasta afirma que trabalha para publicar, ainda neste semestre, ao menos cinco editais estratégicos para o setor ferroviário, incluindo a própria Fico-Fiol.

A versão final do projeto também mudou de escopo. A concessão do Corredor Leste-Oeste foi reformulada para excluir o trecho da Fiol 1, hoje sob concessão da mineradora Bamin, que segundo o governo não vem cumprindo as obrigações contratuais de obras daquele segmento. Sem a Fiol 1, o corredor leiloado passa a reunir 383 quilômetros da Fico, entre Água Boa (MT) e Mara Rosa (GO), e 1.325 quilômetros de dois trechos da Fiol, entre Mara Rosa e a região de Caetité (BA).

Para especialistas do setor de infraestrutura, o adiamento tem um lado positivo.

“Sabemos que há ferrovias novas na carteira, mas outras são antigas e terão de ser refeitas. A oferta desses trechos que estão sendo devolvidos precisa ter costuras bem-feitas para atrair novos investidores, senão podem ter um leilão vazio. É melhor fazer o processo com calma e bem-feito, mesmo que atrase um pouco, do que colocar algo no mercado que não atraia ninguém e isso leve a mais dois, três anos de novos estudos”, afirma Olivier Girard, sócio-diretor da Macroinfra, consultoria especializada em infraestrutura de transportes.

O impacto para a cadeia de obras é direto. Um projeto do porte da Fico-Fiol movimenta, por anos, empreiteiras de terraplenagem e obras de arte especiais, fabricantes de dormentes e trilhos, e prestadores de serviços de engenharia ferroviária, além de gerar empregos em municípios do interior de Mato Grosso, Goiás e Bahia por onde a linha deve passar. Cada mês de atraso no leilão empurra igualmente para frente o início físico das obras, que só começam depois da assinatura do contrato de concessão.

O Ministério dos Transportes afirma ainda estar estruturando mecanismos de investimento cruzado, aportes do orçamento federal e garantias via Fundo de Desenvolvimento da Infraestrutura Regional Sustentável (FDIRS) para reduzir o risco de demanda e tornar os próximos editais mais atrativos a investidores nacionais e estrangeiros.

Por que isso importa?

Para construtoras pesadas e fornecedores de insumos ferroviários, o calendário de leilões de infraestrutura funciona como o principal indicador de quando novos contratos de obra vão de fato abrir. Um adiamento de agosto para dezembro não muda o tamanho do projeto, mas empurra a curva de contratação de mão de obra, aluguel de equipamentos e compra de materiais para 2027, algo que empresas de médio porte que dependem desses editais precisam considerar no planejamento de caixa e na formação de consórcios para a disputa.

Fontes: Ministério dos Transportes; Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT); Macroinfra; Jornal de Brasília/Folhapress.

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