
O setor de saneamento básico investiu R$ 29,1 bilhões em 2024, o maior valor da série histórica pelo terceiro ano consecutivo, segundo o Panorama da Universalização do Saneamento 2026, apresentado nesta semana pela Associação Brasileira das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon).
O montante representa alta de 9% em relação a 2023 e confirma uma trajetória de crescimento que a Abcon atribui diretamente ao Novo Marco do Saneamento, sancionado em 2020, que abriu caminho para concessões e parcerias público-privadas em municípios historicamente dependentes de companhias estaduais deficitárias. Entre 2020 e junho de 2026 foram realizados 70 leilões na área, somando R$ 227,5 bilhões em investimentos contratualizados, segundo o levantamento.
A participação do setor privado no total investido saltou de 15,1% em 2020 para 32,4% em 2024, de acordo com a Abcon. O movimento acompanha um ciclo de obras que inclui redes de água, estações de tratamento de esgoto, adutoras e reservatórios, atividades que empregam diretamente empresas de construção pesada e fornecedores de materiais e equipamentos hidráulicos.
Há ainda uma fila relevante de novos projetos represada. Um estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria GO Associados, mapeou nove projetos em fase de estruturação junto ao BNDES, que somam R$ 58,4 bilhões em investimentos previstos e têm potencial para levar os serviços a mais de 18 milhões de pessoas em 625 municípios. As licitações desses projetos devem ocorrer entre o terceiro trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2028. Outros 31 projetos já estruturados, mas ainda não licitados, somam R$ 32 bilhões adicionais em investimentos previstos, segundo a Abcon.
Mesmo com o recorde de aportes, o país segue distante da universalização prevista pelo Marco Legal do Saneamento, que estabelece metas de 99% de cobertura em abastecimento de água e 90% em coleta e tratamento de esgoto até 2033. Hoje, apenas 780 municípios, equivalentes a 32% da população estimada, já alcançaram a universalização do fornecimento de água. Na coleta e tratamento de esgoto, o número cai para 321 municípios, ou 20% da população prevista. No indicador mais crítico, o Brasil trata apenas 51,8% do esgoto gerado no país, com o volume tratado crescendo 5% entre 2023 e 2024, ritmo insuficiente para fechar o hiato até o prazo legal.
Para o setor da construção, o descompasso entre investimento recorde e cobertura ainda baixa funciona como indicador de demanda represada. Cada novo leilão de concessão implica um ciclo plurianual de obras de infraestrutura subterrânea, estações de tratamento e ampliação de redes, com efeito direto sobre empreiteiras de médio e grande porte, fabricantes de tubos e conexões e empresas de engenharia especializadas em saneamento. A distância entre o contratado e o efetivamente executado também é o ponto que analistas do setor monitoram de perto nos próximos relatórios trimestrais.
A Abcon reforça que a atração de capital privado tem sido decisiva para destravar obras que ficaram paradas por décadas sob a gestão exclusiva de companhias estaduais deficitárias. Com mais concessionárias privadas assumindo operações municipais, cresce também a demanda por projetos executivos, licenciamento ambiental e mão de obra qualificada para operação de estações de tratamento, um mercado que tende a se expandir junto com o cronograma de novas licitações. O ritmo dos leilões, porém, ainda é desigual entre as regiões do país, com Sudeste e Sul concentrando a maior parte dos contratos já assinados, enquanto Norte e Nordeste seguem mais dependentes de financiamento público e de aportes do BNDES para viabilizar os projetos mapeados.
Para quem constrói, incorpora ou projeta no Brasil, o ritmo dos investimentos em saneamento é um termômetro direto da viabilidade de novos empreendimentos, já que a ausência de rede de água e esgoto costuma travar lançamentos residenciais em regiões de expansão urbana. A fila de projetos mapeada pelo BNDES e pelo Trata Brasil também sinaliza onde estará a demanda por mão de obra especializada e insumos de infraestrutura entre 2026 e 2028, um recorte útil para quem planeja contratos de médio prazo no setor.
Fontes: Abcon (Panorama da Universalização do Saneamento 2026); Instituto Trata Brasil e GO Associados.

