Engenharia civil

Fim da escala 6x1 pode alongar obra de 30 para 33 meses

30/9/2026

A construção civil precisaria contratar cerca de 288 mil novos profissionais para manter o ritmo atual dos canteiros caso a jornada semanal caia de 44 para 40 horas, e um prédio residencial que hoje leva 30 meses para ficar pronto passaria a demandar 33 meses. As estimativas do setor ganham peso agora porque a PEC que acaba com a escala 6x1 está a um passo da votação final no plenário do Senado, prevista para depois do primeiro turno das eleições.

A Proposta de Emenda à Constituição 221/2019 garante dois dias de descanso por semana, preferencialmente consecutivos, e reduz a jornada máxima para 40 horas semanais. O texto passou pela comissão especial da Câmara em 27 de maio, foi aprovado no plenário da Casa e, em 2 de setembro, recebeu aval da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em votação simbólica. Agora precisa de cinco sessões de discussão e de 49 dos 81 votos (três quintos) em cada um dos dois turnos no plenário. Segundo o jornal Estado de Minas, a expectativa é que a votação aconteça no esforço concentrado previsto para a segunda semana de outubro. Se o Senado alterar o texto, ele volta para a Câmara.

Para a construção, o problema não é só o custo da hora trabalhada, mas a falta de gente para cobrir as horas que deixariam de existir. Construtoras já relatam dificuldade para preencher vagas de pedreiros, carpinteiros, armadores, serventes e operadores de máquinas, e o setor estima que a mudança poderia elevar o custo da mão de obra em até 15%. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) calcula um impacto de R$ 155,6 bilhões por ano para o mercado imobiliário e de infraestrutura, com peso maior na habitação popular, em que a mão de obra responde pela maior fatia do custo. A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) projeta alta de cerca de 5,5% no preço dos imóveis, o que tiraria 2,5 milhões de famílias do alcance do financiamento habitacional.

O efeito sobre o cronograma é o ponto que mais preocupa quem está com obra em andamento. Segundo Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, a redução de dias trabalhados pode deixar equipamentos pesados de fundação ociosos e esticar prazos de estrutura e revestimento de fachada, atividades que dependem umas das outras e não podem ser simplesmente paralelizadas. O sábado, hoje, funciona como reserva técnica para recuperar dias perdidos com chuva ou atraso de insumos. Sem essa folga, a obra consome mais tempo e mais capital, o que pressiona o fluxo de caixa de empreendimentos com data de entrega já contratada.

"Estamos falando de um segmento que emprega milhões de brasileiros e opera com margens cada vez mais apertadas. A preocupação do setor não é ideológica. É econômica e operacional", afirmou Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, durante o ENIC 2026.

No mesmo debate promovido pela CBIC, David Fratel, diretor adjunto de Gente do SindusCon-SP, lembrou que a passagem para 40 horas semanais representa 209 horas a menos por ano por trabalhador. A CBIC e o SindusCon-SP defendem que qualquer mudança venha acompanhada de um período de transição e de uma agenda de produtividade. Ely Wertheim, vice-presidente da CBIC, pediu um encaminhamento que não penalize contratos já firmados sob as regras atuais. Representantes do setor reconhecem que industrialização e tecnologia ajudam, mas afirmam que, no curto prazo, não compensam sozinhas a redução da jornada.

"A construção é intensiva em mão de obra. Qualquer alteração na jornada tem efeito imediato sobre custo da produção, contratos, prazos e capacidade de investimento", disse David Fratel, do SindusCon-SP.

O debate chega num momento delicado. A Sondagem da CNI de setembro mostrou que a expectativa de número de empregados no setor caiu para 48 pontos, abaixo da linha de 50, e o índice de evolução do número de empregados em agosto foi o mais baixo para o mês desde 2017. Ou seja: as empresas já estão contratando menos por causa dos juros, e uma mudança de regra sem transição poderia apertar ainda mais a conta.

Por que isso importa?

Independentemente do resultado no Senado, o recado para quem constrói é o mesmo: o cronograma baseado em seis dias por semana está com os dias contados, seja por lei, seja pela própria escassez de gente no canteiro. Vale começar agora a simular cenários com 40 horas semanais, revisar a folga dos cronogramas das obras em andamento, identificar quais etapas dependem de sábado para fechar o prazo e medir a produtividade real de cada equipe. Contratos novos também merecem cláusulas claras de reequilíbrio para mudança de jornada. Quem tiver esses números organizados vai negociar prazos, preços e aditivos com muito mais segurança do que quem descobrir o impacto só na próxima medição.

Fontes: Senado Federal, Estado de Minas, Brasil em Folhas, Agência CBIC (ENIC 2026), SindusCon-SP, Abrainc e Confederação Nacional da Indústria (Sondagem Indústria da Construção, setembro de 2026).

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