
Se você ainda achava que o boom de data centers era exagero, os números de maio dizem o contrário: os Estados Unidos gastaram US$ 7,9 bilhões em novas obras de data centers no mês — o oitavo maior volume mensal já registrado — e o acumulado do ano já é mais de quatro vezes o recorde batido no mesmo período de 2025.
Segundo o relatório mensal da ConstructConnect, o acumulado de 2026 chegou a US$ 58,1 bilhões até maio, com 91 projetos iniciados no ano — 13 só no último mês medido. A média móvel de 12 meses está em US$ 9,7 bilhões, e a de seis meses, ainda mais alta, em US$ 12 bilhões: sinal de que o ritmo está acelerando, não desacelerando.
O custo também subiu. A mediana do metro quadrado de um data center em 2026 está em US$ 473 (excluindo os 10% mais caros e mais baratos da amostra), e a média, bem mais alta, em US$ 784 — muitos projetos individuais já passam de US$ 1.000 por pé quadrado. Não é exagero dizer que data centers hoje sustentam a construção não residencial americana: nos últimos 12 meses, eles responderam por mais de um quinto de todos os novos empreendimentos do segmento.
A obra está concentrada geograficamente: Virgínia, Texas, Luisiana, Illinois e Carolina do Norte somam quase 60% de todo o gasto recente com data centers nos EUA. E o pipeline continua cheio — a ConstructConnect monitora quase 100 projetos em fase de pré-construção, somando mais de US$ 101 bilhões, sem contar o Project Kestrel, um empreendimento isolado de US$ 100 bilhões que a consultoria acompanha separadamente por sua dimensão fora da curva.
Esse apetite por data centerestá empurrando outro setor: energia. Os starts de infraestrutura de potência (linhas, subestações, geração) subiram 2,7% até maio frente ao mesmo período de 2025, e a projeção da ConstructConnect é de que fechem o ano 30,8% acima de 2025 — reflexo direto da eletricidade que uma fazenda de servidores de IA consome. No balanço geral, a construção não residencial americana já soma US$368 bilhões em novos empreendimentos até maio, 18% acima do ano passado — o crescimento mais rápido desde a pandemia.
E o Brasil está longe de ficarde fora dessa corrida. O país já concentra 71% da capacidade de data centers em construção na América Latina, segundo levantamento citado pela Forbes Brasil, com a Microsoft comprometendo US$ 2,7 bilhões e a AWS outros US$1,8 bilhão em operações no país. Só a Ascenty anunciou US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) em investimentos para 2026 entre Brasil, México e Chile.
Por que isso importa
Data center é obra pesada — funciona como uma central elétrica disfarçada de galpão, com fundação reforçada, redundância de energia e refrigeração de alta capacidade. Esse tipo de projeto está deslocando parte da mão de obra especializada, do aço e do concreto disponíveis no mercado americano, o que já pressiona prazo e preço em outros segmentos da construção não residencial. Vale acompanhar de perto: se a demanda por infraestrutura de IA continuar nesse ritmo, o mesmo aperto de insumos e equipes especializadas pode chegar com força ao mercado brasileiro, que já disputa boa parte desses mesmos investimentos.
Fontes: ConstructConnect / Forbes Brasil.
Depois de três trimestres consecutivos de alta, a absorção líquida de galpões noestado de São Paulo recuou no segundo trimestre — mas isso não aliviou a escassez de espaço: a vacância caiu para o menor nível já registrado, e o aluguel bateu recorde.
Segundo dados da consultoria Newmark, a absorção líquida (área efetivamente ocupada) recuou 9,6%entre abril e junho frente ao trimestre anterior, para 452 mil m². A entrega de novos galpões somou 188 mil m² no período — oferta ainda controlada perto da demanda.
Resultado: a vacância caiu para 5,1%, o menor patamar da série histórica, e o preço médio pedido de locação mensal chegou a um novo recorde, de R$ 33,70 por m², alta de 12% em 12 meses. Na região metropolitana de São Paulo, o aluguel médio foi ainda maior, R$34,67/m², contra R$ 31,86/m² no restante do estado.
Quem empurra essa demanda é o comércio eletrônico. No varejo como um todo, o e-commerce já concentra 63% das ocupações de galpões, contra 30% das lojas físicas. E o maior ocupante do mercado, o Mercado Livre, deve investir R$ 60 bilhões neste ano — 50% mais do que investiu em 2025, segundo estimativa da própria Newmark.
"Hoje,o mercado de São Paulo vive um dos momentos mais competitivos da história.Havia uma demanda reprimida, porque tudo que vem sendo entregue de novo estoquejá vem sendo absorvido" — Mariana Hanania, head de pesquisa e inteligênciade mercado da Newmark, ao Metro Quadrado.
Guarulhos, Barueri e o eixo doABCDM concentraram os maiores aumentos de área ocupada no trimestre — eacompanham também as principais entregas de novos galpões. O alívio de ofertapode demorar: dos 1,4 milhão de m² previstos para entrega em 2026, 43% estão emGuarulhos, 21% em Cajamar e 14% na capital paulista. Só que entre 60% e 70%desse pipeline já chega ao mercado pré-locado, segundo a Newmark — o que reduz,na prática, a disponibilidade de espaço realmente novo no mercado.
A consultoria espera que avacância continue em níveis historicamente baixos até o fim do ano, compossibilidade de leve alta em relação ao patamar atual. "Não dá parapensar em puxar o freio ou em alguma queda mais brusca nessa demanda no curto emédio prazo", resume Mariana.
Por que isso importa
Para incorporadoras, fundosimobiliários e construtoras do segmento logístico, o recado da Newmark édireto: uma mudança mais relevante na relação entre oferta e demanda só deveaparecer quando a próxima geração de empreendimentos, prevista para 2027, começara ser entregue. Até lá, quem já tem terreno e projeto aprovado no eixoGuarulhos–Cajamar–ABCDM está sentado em um dos ativos mais disputados daconstrução civil brasileira — e com poder de repasse de preço pouco comum nosetor.
Fontes: Metro Quadrado / Newmark.