
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 25 milhões do programa BNDES Mais Inovação para que a AltoQi, empresa de softwares de engenharia estrutural e BIM de Florianópolis (SC), incorpore inteligência artificial generativa às ferramentas usadas no cálculo e na verificação de edificações complexas, prédios altos e super altos. O anúncio, feito pela Agência BNDES em 1º de outubro, chega junto com um dado de teste que chama atenção: agentes de IA checaram um modelo BIM completo de um edifício de dez pavimentos em 20 a 30 minutos, uma redução de até 95% no tempo de análise.
Segundo o banco, o dinheiro vai financiar 68 profissionais, entre engenheiros de software, analistas de dados e desenvolvedores, dedicados a novas funcionalidades para estruturas de grande porte. Um ponto destacado pelo BNDES é a aderência às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), algo que, de acordo com o comunicado, não está presente nos softwares estrangeiros que disputam esse mercado. Na prática, é uma aposta pública em ferramenta nacional para dimensionar estruturas que hoje dependem muito de soluções importadas e de adaptações manuais às regras brasileiras.
"O financiamento contempla soluções digitais para dar ao setor ganhos de produtividade do setor, com ferramentas que melhoram o planejamento e a gestão financeira e reduzem erros de projeto e execução", declarou José Luís Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES.
O número que melhor explica o problema que a IA tenta atacar é o volume de dados de um projeto. Um edifício de dez pavimentos pode reunir entre 20 mil e 25 mil elementos BIM, cada um com informações de geometria, material e especificação. Revisar item por item levaria dias ou semanas, e por isso muitas equipes trabalham por amostragem ou simplesmente deixam a checagem profunda de lado. Nos testes divulgados pela empresa, os agentes de IA fazem uma primeira varredura do modelo, apontam elementos sem dados obrigatórios e incoerências entre disciplinas, e entregam ao engenheiro uma lista priorizada do que precisa ser revisto.
"É como a triagem feita antes de uma consulta médica. A inteligência artificial percorre o projeto, o orçamento ou o planejamento, organiza os achados e entrega ao engenheiro os pontos mais relevantes. O profissional deixa de gastar tempo procurando onde pode estar o problema e passa a concentrar sua experiência na análise e na decisão técnica", explica Peter Paredes, coordenador de desenvolvimento de negócios da AltoQi.
A responsabilidade técnica, frisa a empresa, continua com o engenheiro, que pode rastrear a origem de cada apontamento feito pela ferramenta. E há um pré-requisito que vale para qualquer canteiro: a IA só entrega resposta útil quando encontra um modelo bem estruturado. Projetos que ainda circulam apenas em 2D e planilhas soltas ficam de fora desse ganho. O pano de fundo é um setor que ainda usa pouco do que a tecnologia já permite. Levantamento da Anthropic sobre o impacto da IA no trabalho, citado pela AltoQi, aponta que atividades de arquitetura e engenharia têm cerca de 85% de exposição teórica à IA, mas apenas 5% de exposição observada no uso real.
"O apoio do BNDES ao desenvolvimento da indústria nacional de software BIM é estratégico para acelerar a transformação digital da construção civil", avaliou Felipe Althoff, CEO da AltoQi.
O foco em prédios altos não é por acaso. Torres acima de 30 ou 40 pavimentos concentram as combinações mais críticas de carga de vento, esbeltez, fundações profundas e interferências entre estrutura e instalações, e qualquer erro detectado só no canteiro custa caro em demolição, retrabalho e prazo. Antecipar essas falhas para a fase de projeto, quando mudar uma linha no modelo custa quase nada, é exatamente onde os executivos do setor enxergam o maior retorno imediato da IA. A combinação com o BIM também é vista como alavanca para a industrialização, já que kits e componentes pré-fabricados exigem quantidades e especificações precisas desde o planejamento.
Para quem constrói ou incorpora no Brasil, a mensagem é dupla. Primeiro, a IA aplicada a projeto está saindo do discurso e virando ferramenta com financiamento público, prazo de entrega e métrica de desempenho: checar em meia hora o que antes levava semanas muda a conta de compatibilização e reduz a chance de surpresa estrutural no meio da obra. Segundo, o ganho só aparece para quem tem dados organizados. Construtoras que ainda recebem projetos sem padrão, sem modelo BIM confiável e sem rastreabilidade de revisões vão continuar descobrindo os erros no canteiro, onde eles custam mais. Vale aproveitar o momento para exigir dos projetistas modelos bem estruturados e para organizar, do lado da obra, o fluxo que conecta projeto, compras e execução.
Fontes: Agência BNDES, via Revista Grandes Construções (01/10/2026); AltoQi, via Rede PRESS (01/10/2026); Anthropic, estudo sobre impacto da IA no mercado de trabalho.

