
A Meta publicou como código aberto o BOxCrete, um modelo de inteligência artificial que projeta traços de concreto, e um traço otimizado com materiais americanos atingiu a resistência estrutural plena 43% mais rápido que a fórmula original em uma laje de fundação do data center de Rosemount, em Minnesota, e reduziu o risco de fissuração em quase 10%. O anúncio saiu em 30 de março de 2026 no blog de engenharia da empresa, sob o título "AI for American-Produced Cement and Concrete", e coincidiu com a Convenção de Primavera do American Concrete Institute (ACI).
O ponto de partida é uma dependência. Os Estados Unidos consomem cerca de 400 milhões de jardas cúbicas de concreto por ano, o equivalente a algo em torno de 300 milhões de metros cúbicos, e cerca de 20% a 25% do cimento usado no país é importado, segundo a Meta. O setor movimenta mais de US$ 130 bilhões por ano e emprega cerca de 600 mil pessoas. A ideia é que a IA ajude produtores locais a reformular traços em torno de materiais fabricados no país sem perder desempenho, o que normalmente exigiria uma longa bateria de ensaios.
O BOxCrete usa otimização bayesiana, conduzida pela plataforma de experimentação adaptativa Ax. O processo tem quatro movimentos: o modelo aprende com o histórico de traços e resultados de laboratório, propõe candidatos com maior chance de cumprir a especificação, respeita as restrições definidas no início (requisitos técnicos e ingredientes disponíveis) e se refina a cada novo ensaio. A versão atual ficou mais robusta a dados ruidosos e passou a prever também o slump, indicador de trabalhabilidade. A ferramenta interativa de resistência usa um modelo de Processo Gaussiano treinado com corpos de prova de argamassa e concreto de laboratório.
Há parceiros de peso no projeto. A Amrize, maior fabricante de cimento e concreto da América do Norte, com 18 fábricas de cimento, 141 terminais e 269 unidades de concreto dosado, previu cerca de US$ 1 bilhão em investimentos em 2026 e dividiu com a Meta dois prêmios de 2025: o Building Innovation Award, de melhor parceria, e o Slag Cement Award, junto com a Universidade de Illinois Urbana-Champaign. A construtora Mortenson participou do caso em Minnesota, e a plataforma Quadrel, de software para usinas de concreto dosado, já incorporou o framework da Meta em seus produtos, com modelos que melhoram conforme recebem resultados de obra.
A própria Meta marca o limite da tecnologia. A previsão de resistência vale para condições controladas de laboratório e, e o texto da Meta faz essa ressalva em tradução livre:
pode diferir do desempenho em campo
A IA não substitui validação laboratorial, testes de campo, aprovação de engenheiros nem conformidade com as normas. O papel dela é entregar bons pontos de partida com menos tentativas. O código e os dados dos traços premiados estão no GitHub, e a estrutura de software de 2023 usa licença MIT, que permite uso comercial.
No Brasil, a lógica é diretamente aplicável: cada região tem cimento, agregados e aditivos com características próprias, e trocar de fornecedor costuma significar refazer ensaios. Uma ferramenta aberta de otimização mostra um caminho para usinas e construtoras reduzirem tentativas e acelerarem a desforma, o que encurta o ciclo da obra. O recado prático é que a IA entra no concreto como apoio à decisão do engenheiro, e não como substituta do laboratório. Vale acompanhar o repositório e testar o modelo com os dados da sua própria usina ou obra.
Fontes: Engineering at Meta, "AI for American-Produced Cement and Concrete" (30/3/2026); repositório SustainableConcrete (GitHub); American Concrete Institute.
